Arquivo X (por Parcilene Fernandes)

Publicado: 10/02/2009 em Literatura

Não tem como deixar de postar os textos que encontrei perdidos na web, da minha ilustríssima mestra Parcilene Fernandes Brito.

Primeiro temos um texto feito com base em vários episódios da trama de ficção de nome “Arquivo X”. no texto Arquivo X da primeira a quinta temporada há um jogo feito com os títulos presentes nas varias temporadas da série.

Depois temos uma obra prima, a autora nos coloca dentro de um cinema com um conto aos moldes de Jorge luiz Borges. Minha leitura foi tão apaixonante pela epifania inusitada, que cheguei a assistir o último filme da série, que ainda não tinha chamado minha atenção, perdoem me os fãs.

Para quem gosta e acompanha X File, uma ótima leitura e reencontro com os agentes Fox Mulder e Dana Scully, para quem não conhecia ainda leiam e deixem suas opiniões.

Thiago Amorim.


ARQUIVO X

Primeira à Quinta temporada.

O campo onde morri ao encontrar demônios e revelações, ainda permanece tão ilusório quanto a procura incessante através do lapso de tempo e da elegia que enfeita minhas insignificâncias. Quase tão real quanto o fantasma da máquina fria que me observa é o desejo de avistar o serafim através da luz suave que me cerca. Sempre desejei encontrar o homem que não queria morrer, mas somente vi vampiros e sangue. Quando a noite cai posso enfrentar O grande Mutato, o demônio de Jersey e Duane Barry, mas nada posso fazer contra o hospedeiro da ilusão que trago comigo. Os corações de pano que costurei tentando iludir a besta humana e as sombras, só provocaram esquizogenia e dor. O falso alienígena é mais real que o museu vermelho que guarda os ossos frescos do monstro do lago e o mistério do Piper Maru. Ainda permaneço sem dormir, temendo o assassino imortal e os adoradores das trevas que me perseguem no escuro. Sempre vivo por um fio à procura da trindade e do vidente que me revelará o elo de ligação para uma vida menos confusa. As lembranças finais confirmam que a maior das mentiras quase nos levou a uma loucura coletiva, fazendo-nos acreditar numa visão interior que nos resgataria do feitiço e do jogo de gato e rato que transformou nossa cidade em um sanatório da morte. Tão grotesco quanto uma guerra das baratas é o homem do câncer ao tentar esquecer sua dor e medo. Pobre homem desprezado e sanguinário que constantemente faz orações para um morto enquanto o mundo gira e ele nem consegue perceber que começa também a morrer. Meditações sobre um canceroso, às vezes, ainda tendo entendê-lo, talvez também possua a pedra da morte e, a terrível simetria que vejo nos meus olhos assustados seja a sincronia que mesmo inconsciente estabeleço com ele.

Um dia, ouvi uma história sobre homens-mariposa, uma comunidade que existia graças a uma biotoxina que iludia o tempo fazendo com que eles continuassem vivendo no ciberespaço, e acreditassem ser tão reais quanto os japoneses que os projetaram. Tão triste quanto esse povo virtual é a menina Emily que acredita numa surpresa no natal trazida por um ser do espaço tímido demais para se aproximar e a libertar do cativeiro e do instigador que a faz permanecer imóvel à espera do dinheiro infernal. Firewalker, Aubrey, os calusari, Eva, teliko, roland, todos esses nomes desconhecidos me transformaram numa paciente X, aquela que acredita que Eugenes Tooms sempre volta a atacar, que sente terror no gelo, pensa viver numa missão em perigo, considera-se uma agente de dupla identidade perseguida por simpatizantes de caça à raposa e espera que o repouso final de Clyde Bruckman, aquele homem que viu a própria morte, possa fazê-la entender que o destino não pode ser manipulado como uma operação clip de papel. Os homenzinhos verdes ainda voltam ao mundo em preto e branco que construí, suspeitos incomuns do espaço sideral que criei em busca da verdade para o lar e o milagre que nunca existiram. Não restou mais nada, encarnação, assassino ou assassina, a maldição da múmia, o raio da morte, são apenas a fraude que tentei esconder para dá sentido a uma vida tão solitária quanto a viagem eterna de um navio fantasma e tão extinta quanto a tribo Anasazi, perdida em meio a segredos e superstições. A volta do além talvez ocorra. Um dia não acreditarei mais na existência de um vírus da morte, nem que o incendiário me perseguirá numa caçada sangrenta, também não ficarei à espera que o homem dos milagres venha me salvar da dor. Será o fim do jogo, o fim do passeio que iniciei a mais de cinco anos, o caminho da cura para a inquietação de quem espera que a morte vem do espaço. Nunca mais olharei para o céu buscando a ascensão para o fantástico, aceitarei a lista da morte que nos torna grampeados e rotulados para um futuro incerto. Nunca mais? Por que estou mentindo? Logo eu que sei o quanto é irresistível acreditar que a verdade está lá fora.

ADORMECEU

P. Fernandes

Baseado na série Arquivo X. Criação de Chris Carter.

Providence, Rhode Island, EUA – 7 de Outubro de 1976

6:00 PM

No final de uma tarde de inverno, um menino sentado num banco de uma igreja em ruínas, espera ansiosamente alguém. Aparenta ter doze anos, é extremamente bonito, até parece deslocado no lugar fantasmagórico em que se encontra.

Uma menina entra na ponta dos pés, esperando não ser notada. O menino ainda de costas, sorri, percebe a sua presença, mas espera em silêncio. Ela venda seus olhos. Nesse momento, por uma fresta na janela em forma de cruz, a luz do sol incide sobre seus cabelos, atenuando ainda mais a cor avermelhada.

– Adivinha quem é?

– Bem, será o Fred Bolão ou o Tom Tonto… Tá difícil.

– Ahh!! Você é um bobo. – tira as mãos dos seus olhos – Veja só!! – e mostra-lhe o colar que tem como pêndulo um crucifixo. – Ganhei do meu pai ontem a noite.

– É muito bonito. Pena que não tenho dinheiro para te dar um presente.

– Não precisa. Apesar desses lugares estranhos que você me faz vir, eu gosto muito da sua companhia.

– É … – E vai se aproximando. A menina fica meio envergonhada no início mas não se afasta. Aceita o beijo. Um vento forte sopra lá fora. A tempestade se aproxima. Algo se arrasta entre os bancos, quando um relâmpago clareia o lugar, percebe-se que é apenas um rato que foge apressado.

Dois dias depois, num cemitério, a voz melancólica de um padre se faz ouvir.

– “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo.” Ao redor do caixão encontram-se algumas pessoas chorando. Mas alguém não chora. O rosto inexpressivo só observa. E o padre continua sua oração, na esperança de apaziguar a dor através da fé.

– “Bondade e misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre.”

O menino deixa uma flor sobre o caixão. E, como este possui uma abertura que permite ver a face da morta, ele aproxima os lábios de sua pele gélida e fala num sussurro: – Durma, minha bela princesa de cabelos de fogo.

Então se afasta, com um sorriso perturbador na face.

Washington DC, Dias Atuais.

Prédio Edgar Hoover, Porão – Sexta-feira – 6:00 PM

Na mais completa desorganização de um escritório tumultuado por pastas, pôsteres, fotos desfocadas de objetos estranhos, antigos arquivos de aço, encontram-se Mulder e Scully. Os dois jovens agentes do FBI estão verificando com um certo tédio, o conteúdo de algumas das inúmeras pastas que estão displicentemente jogadas sobre a mesa.

– Scully, o que você vai fazer amanhã? – pergunta Mulder repentinamente.

– Nada. Quer dizer, terminar de ler um livro. Assistir uns filmes. Por quê? – fala Scully com ar de cansaço.

– Nada. – E volta a ler. Não conseguindo concentrar-se, move-se na cadeira e olha de relance para Scully. – E domingo?

Scully responde sem retirar os olhos da pasta.

– Ahn?! Nada. Por quê?

– Nada. – após um breve silêncio, ele volta a olhar para ela e acrescenta. – Scully …

– Fala logo o que você quer investigar nesse final de semana Mulder. É algum possível alien congelado no Ártico? Ou um navio de tripulantes envelhecidos? Ou melhor, um jovem comedor de fígados. Ou talvez…

– Queria te convidar para ir a um restaurante de um velho amigo meu. Há tempos que não o vejo, ele me convidou para a inauguração, será amanhã. Então eu pensei, bem se a Scully…

– Eu aceito. – fala ela abruptamente.

– Eu passo amanhã na sua casa, às dez.

– Tá.

Os dois voltam a olhar para as pastas, de certa forma incomodados com algo.

Restaurante

Sábado, 10:15 PM

Mulder e Scully estão entrando no restaurante, um ambiente moderno e tranqüilo. Ele está vestido informalmente com uma bulsa branca, jeans e uma jacketa. Ela, com uma saia e uma blusa creme, mais leve do que é o seu traje habitual.

– Eu cheguei a pensar que ontem eu havia falado com um clone seu.

– Você acredita que já temos tecnologia capaz de fazer clonagem humana, Scully? – Pergunta Mulder ironicamente.

– Após cinco anos, fica cada vez mais difícil não acreditar.

Nisso um homem se aproxima da mesa, sorridente. Ele toca o ombro do Mulder, que ainda não o tinha visto, e fala com entusiasmo:

– Mulder, “o estranho”. Como está “Sr. agente do FBI”?

Mulder vira sorrindo. Eles se abraçam. Scully observa a cena um tanto confusa. Nunca havia visto o Mulder agir tão naturalmente.

– É, bom… Brian, essa é Scully, minha parceira. Scully, Brian Carter, quase um agente do FBI.

– Oi. – fala Scully, enquanto Brian aperta alegremente sua mão.

– Mulder não tinha me falado.

– Do quê? – Pergunta Mulder surpreso.

– O quanto sua parceira é linda.

Mulder olha para Scully um tanto constrangido. Ela revida o olhar inquisitiva.

No banheiro do restaurante, uma mulher rola no chão. Da sua boca sai uma gosma branca e dos seus olhos um líquido amarelo. Nesse momento, a porta se abre. Um rapaz bonito e jovem entra. Ao ver o estado da mulher, corre.

Brian está sentado confortavelmente ao lado da Scully. Ela parece um tanto incomodada e Mulder, meio perdido.

– O Mulder me falou que você não acredita muito no “inexplicável”.

– Eu não acredito é que haja o “inexplicável”. Tudo, a seu tempo, será explicado pela ciência.

– Bom, vejo que o Mulder encontrou a mulher, digo, parceira certa pra ele. Mas então, até onde vai a “parceria” de vocês? – Diz Brian com um sorriso malicioso.

– Brian, por favor. – fala Mulder envergonhado, Scully apenas sorri.

Nesse momento, o jovem que estava no banheiro vem correndo e tropeça numa cadeira, caindo próximo a mesa do Mulder. Quando ergue os olhos, vê Scully. Fica boquiaberto, observando-a. Depois fala bem devagar:

– Ela só está dormindo.

Nisso alguém grita.

– Por favor, tem uma mulher morrendo no banheiro.

Mulder, Scully e Brian no mesmo instante vão para lá. O rapaz levanta ainda atônito, corre em direção a porta de saída e desaparece na noite. Um vento repentino invade o local. No banheiro, Mulder com seu celular chama os paramédicos.

– Ela está tendo um ataque epiléptico, ou pode ter ingerido algo envenenado. Meu Deus Mulder, ela está morrendo.

Os movimentos do corpo ficam mais leves, até que param totalmente.

– Está morta. – Fala Scully, fechando os olhos da mulher.

– É, meu restaurante foi inaugurado em grande estilo. – Observa Brian.

Prédio Edgar Hoover, Porão – Segunda-feira – 9:00 PM

Scully está sentada na cadeira que, usualmente é utilizada pelo Mulder, lê algumas autópsias. Mulder entra eufórico.

– Não vai acreditar.

– Com certeza. – Diz Scully com ar de tédio na voz.

– A morte da moça no restaurante do Brian. O caso é nosso. Um arquivo X.

– Sem essa Mulder! A mulher teve um ataque epiléptico. É só. Nada de conspirações, paranormalidade, feitiçarias.

Ele estende uma pasta para ela. Após olhar alguns itens, ela fala espantada:

– Aqui diz que ela foi envenenada.

– Não, a causa da morte foi envenenamento. – diz Mulder com o já conhecido brilho no olhar.

– A substância encontrada na sua corrente sangüínea foi identificada. É de um escorpião africano. – acrescenta Scully enquanto faz uma leitura rápida no relatório.

– Um escorpião africano num restaurante, em pleno Estados Unidos. E tem mais, outras três mulheres foram mortas em situações semelhantes em Nova Jersey, Filadélfia e Memphis.

– Estranho. – é a vaga constatação da Scully.

– Vamos. – Mulder já está com a porta aberta.

– Pra onde?

– Um inferninho do outro lado da cidade. Encontraram outro corpo.

Segunda-feira, 10:15 PM

Num bar sujo e escuro, estendido entre restos de cerveja barata, está o corpo de uma jovem mulher. Os cabelos avermelhados ainda se movimentam, o vento frio dança ao seu redor. Mulder se abaixa, um brilho no pescoço da mulher lhe chama a atenção. É um crucifixo preso a um fino colar. Ele olha para Scully, sente medo. Longe dali, um homem se arrasta pelos restos de uma antiga construção, nada sente, nada diz, apenas sorri.

Terça-feira, 2:10 AM

Sala de Autópsia

– E aí, o que descobriu?

– Está tudo muito confuso, Mulder. – Diz Scully, ainda observando o rosto pálido da moça. – A substância encontrada na corrente sangüínea dela é basicamente veneno de um escorpião que tem como habitat regiões africanas. Mas, eu andei pesquisando na Internet, e descobri que essa espécie está em extinção, dificilmente estaria picando jovens …

– Jovens ruivas, com crucifixo preso a uma corrente.

– Do que você está falando? – Pergunta Scully, já temendo a resposta.

– Veja essas fotos.

Scully olha assustada o retrato das outras quatro jovens mortas em situação semelhante. Ele se aproxima dela e pergunta de forma triunfante.

– Na autópsia que fez, encontrou alguma marca de picadas?

– Não. Mas antes que você venha com alguma de suas “teorias”, vou falar a minha. Acho que o veneno foi ingerido. A prova está na saliva, onde há resíduos complexos da substância. O interessante é que o veneno age devagar, pelos exames toxicológicos a substância estava no corpo há umas 30 horas antes da reação que vimos no restaurante. – Scully pensa um pouco e acrescenta – Mas, ainda não sei como elas teriam acesso a um veneno tão raro. O fato de todas terem um aspecto semelhante e estarem usando o crucifixo, leva-me a crer que poderiam fazer parte de uma seita ou algo parecido. A distância se torna irrelevante, muitos desses cultos negros se espalham vertiginosamente pela Internet. É a tecnologia, a ignorância e o fanatismo Mulder, andando lado a lado.

– Acho seu cabelo muito bonito Scully. – ela quase sorri. – Respeito suas opiniões – toca levemente no crucifixo que ela carrega sempre consigo – Apesar de não entendê-las totalmente. Mas, me assusta a possibilidade de ter um psicopata nessa cidade matando mulheres com características físicas tão semelhantes às suas.

– Se elas tivessem sido forçadas a ingerir a substância, Mulder, teriam lutado, haveria marcas no pescoço, nas mãos. Mas essas marcas, não foram encontradas. Mesmo que o possível assassino as tenham enganado, colocando o veneno em uma outra bebida, seria quase impossível, devido ao forte odor e o próprio gosto da substância, alguém não perceber. Não estamos falando de um simples veneno fabricado em laboratório, mas de algo rústico, primitivo. Uma substância que, não entendo muito bem, foi encontrada na sua fórmula original, vagando na corrente sangüínea da vítima, como se estivesse encontrado seu próprio lar.

Nesse instante, o celular do Mulder toca.

– Mulder. – Ele escuta uma notícia que o deixa ansioso.

– Estamos indo. – Fala então para Scully – Um jovem acaba de se entregar, afirma ter sido responsável pela morte das cinco mulheres.

Delegacia de Washington – Terça-feira – 4:30 AM

Scully está encostada num canto da sala de interrogatório. Observa pensativa o jovem bonito, de olhar perturbado, que chora descontroladamente. Mulder, à sua frente, tem uma postura fria, parece não se comover com a insanidade do possível criminoso.

– Então você teve um caso com todas essas mulheres, depois inexplicavelmente elas apareciam mortas.

– No começo – diz o homem tentando recuperar a voz – eu não acreditava que era culpado. Teve a Louise, depois a Jennifer. Então, na terceira vez, eu não conseguia mais entender. Num dia todas estavam bem, no outro via aquela cena horrível. Sempre que acontecia, eu quero dizer, sempre que uma morria, eu decidia mudar. Até acontecer aqui. Precisava ficar, eu tinha que entender. Estou enlouquecendo. Parece que o demônio está agindo sobre mim. Ele me leva a mulheres lindas, sempre com uma aparência semelhante… assim – aponta para Scully – como ela. E depois as tiram de mim.

– Você matou essas mulheres Roberth. Nada de demônios, nem enigmas. Você simplesmente as envenenou. Foi isso que aconteceu. – conclui Mulder friamente.

– Não. – Grita Roberth. Não é verdade.. Ouço sempre uma voz que diz “ela só esta dormindo”. Essa voz me persegue desde o dia que as mulheres começaram a morrer. – Faz uma longa pausa – Você acredita em mim. – Vai levantando em direção a Scully.

Mulder o agarra com força e o joga de volta à cadeira.

– Sente-se aí. – Vira para Scully que permanece pensativa. – Vamos sair daqui. Creio que esse caso está resolvido.

Quando já estão fora da sala de interrogatório, Mulder diz:

– É o típico caso do assassino que busca justificativas para apaziguar seu remorso.

Scully nada fala. No fundo, acreditou no homem. Ainda não sabia como explicar isso ao Mulder. Então preferiu o silêncio.

Casa da Scully – Sábado – 8:00 PM

Deitada no sofá, Scully lê atentamente um livro, na capa vê-se de relance o nome “José Jung”, um escritor que ela e Mulder conheceram a algum tempo. Alguém toca a campainha. Ela levanta mal humorada. Verifica quem é através do olho mágico. Faz uma expressão de surpresa e abre a porta.

– Olá, linda agente do FBI. – É a saudação entusiasmada de Brian.

– Oi. – Meio perturbada Scully logo acrescenta – Aconteceu alguma coisa com o Mulder?

– Esquece o Mulder. Apesar dele estar visivelmente caído por você, nunca vai te revelar isso.

– Do que você está falando?

– Posso sentar? Ou vamos ficar conversando em pé mesmo?

– É… Ahn… – Nisso ele senta. Ela, meio desnorteada senta no sofá à sua frente.

– Vendo você e o Mulder no restaurante quando aquela pobre mulher se foi, fiquei pensando no que teria acontecido se eu tivesse continuado na academia. Poderia ter uma parceira assim, como você. Sabe, nunca vi o Mulder falar de alguém como ele me falou de você. Apesar de ser tão estranho e distante, pareceu-me quase um cara normal. Acho que você o trouxe de volta. O fez esquecer um pouco o céu e a perda.

Scully está com um olhar distante, tentando assimilar as palavras de Brian, quando o telefone toca.

– Alô.

– Scully sou eu. Andei lendo aquele caso de Missouri e pensei se você poderia fazer uma nova autópsia.

– Mulder…

– É, a face daquela mulher escondia algo maior. Não me pareceu ser um mero ataque cardíaco.

– Mulder…

– Não, mas claro, é fim de semana, você deve ter muitas coisas para fazer. Vai visitar sua mãe?

– Depois eu falo com você.

– Por quê, tá sentindo alguma coisa?

– Não, é que … O Brian está aqui.

– Ele foi me procurar? Diz pra ele que… Mas como ele sabia o seu endereço? Poderia ter vindo direto na minha casa.

– Ele veio falar comigo.

– Ah. Sei. Tá. – Um momento de silêncio.

– Tchau Mulder.

– Tchau.

Mulder está com seu carro parado em frente ao prédio da Scully. Assim que desliga o telefone, deita a cabeça no volante como se estivesse extremamente cansado. Assusta-se com o toque do celular.

Após o término da ligação, Scully vira e percebe o sorriso de Brian.

– Era o Mulder. Ele estava falando de um caso antigo sobre…

– Ele só queria falar com você. Eu fico pensando o que aconteceria se um dia ele te perdesse?

Scully franzi a testa, tentando entender para onde iria aquela conversa. Então Brian prossegue.

– Mas, o Mulder não está aqui. A vida é breve Scully, quando menos esperamos, já estamos dormindo. Por que não aproveitarmos? – E se aproxima insinuante.

Alguém, nesse momento bate violentamente a porta. Scully se levanta apressada, livrando-se do abraço de Brian. Abre a porta sem ao menos verificar quem é.

– Mulder !?!

Mulder vai entrando eufórico, olha de relance para o Brian sentado displicentemente no sofá.

– Como chegou aqui tão rápido? Pergunta ela assustada.

– Estava por perto, então o celular tocou e… o Roberth está morto, Scully. O assassino continua a solta. Ele apresentou as mesmas características das mulheres. O que me assusta é que psicopatas dificilmente fogem do padrão. Essa pessoa que estamos procurando é lúcida e comum. Como não tínhamos nenhuma prova concreta sobre o rapaz, alguém lhe pagou a fiança, com certeza o assassino. Mas ele foi esperto, conseguiu anonimato, enviando uma senhora em seu lugar. Ela diz ter recebido o dinheiro para pagar a tal fiança pelo correio. Matou o rapaz, para que ele não o comprometesse.

– Vejo que nossa noite está perdida. – desabafa Brian.

– Mulder aguarde só um instante, eu vou te acompanhar. Vamos verificar depois da autópsia se o criminoso mudou sua tática de ataque. – E vai entrando para o quarto.

– Depois do telefonema, eu calculei vinte minutos. Você me surpreendeu, Mulder. Conseguiu chegar antes.

– Do que você está falando, Brian? – pergunta Mulder impaciente.

– Do ciúme, da insegurança. Você é tão normal quanto nós, “Sr. agente do FBI”.

Scully aparece, com seu traje formal.

– Vamos!

– Eu posso ir com vocês? – pergunta Brian.

– Não. Sabe como é, Brian. Isso é coisa para agentes do FBI. – fala Mulder num tom sarcástico.

Domingo, 1:15 AM

Sala de Autópsia

Mulder está encostado numa mesa observando Scully.

– Bom Mulder, ele apresenta todos os sintomas das demais vítimas, exceto pelo corte no pulso, mas o corte estancou rapidamente, isso não o mataria, e além…

– A saliva está com o mesmo índice de contaminação das demais? – Pergunta Mulder pensativo.

– Não, já fiz o teste. Está límpida. O veneno apenas dança na sua corrente sangüínea, como se estivesse vivo. Tem alguma teoria?

– Ele não beijaria um homem. – Fala Mulder com toda certeza.

– O quê? Beijos que matam? É um crime sério, não literatura barata.

– É um criminoso extremamente instigante. Romântico, saudosista e terrivelmente cruel. Quando eu ainda estava na faculdade, estudei um caso assim. Fiquei realmente assustado. É tão humano e tão monstruoso. – faz uma pausa e depois acrescenta – Você sabia, não é Scully?

– Sabia, o quê?

– Que não tinha sido esse rapaz. – ele a observa por um instante e depois diz com sinceridade – É isso que me deixa fascinado, sua capacidade de discernir o bem do mal.

Depois de um silêncio constrangedor, Scully fala, tentando parecer irônica.

– Bem, vejamos o que constará no relatório que faremos para o Sr. Skinner: “Temos um príncipe das trevas envenenando mulheres com uma substância rara que só poderia ser encontrada em escorpiões que estão em extinção no longínquo território africano. Ahh! E um toque excêntrico: todas as mulheres foram contaminadas a partir de um beijo fatal, exceto a última vítima que, por questões de natureza machista, não foi beijado.”

– Legal. Já temos um bom começo. – fala Mulder sorrindo.

África, 7 de agosto de 1964.

Um homem está sentado na varanda de uma casa, observando com angústia a vastidão da savana que o cerca. O silêncio sombrio que envolve a paisagem inebriante é cortado apenas pelos sons de animais nativos. Um médico sai da casa e se aproxima do homem. Em seu rosto está visível a expressão da derrota. A morte vence outra vez. Antes mesmo dele falar qualquer coisa, o homem ainda observando a paisagem, conclui.

– Ela morreu. .. Não quis vê-la morrer, não podia segurar sua mão e encarar seu olhar. Eu a matei. Uma morte tão vulgar e patética. É cômico – fala com um sorriso nervoso – sempre pensamos na morte como algo grandioso e, somos derrotados por pequenos absurdos. O veneno de um animal menor que minha mão e ao mesmo tempo mais poderoso que minha arrogância, acabou com nossos sonhos. O fim no qual eu fiz questão de contribuir, comprando passagens, casa. Ludibriei minha adorável esposa, construí seu túmulo em vida. Como eu sou mesmo conhecido pela imprensa? – Faz uma pausa como se tivesse tentando lembrar todo o passado – “O fotógrafo da morte”. Acho que meu filme se encerrou afinal.

– Ainda não acabou, Peter. A criança sobreviveu. Tem um lindo garoto lá dentro. Você não o ouviu chorar porque o rapaz é silencioso.

Peter fica estático, tentando assimilar o que o médico falou. Depois entra apressado na casa. Ao chegar na porta do quarto, pôde ver sua mulher, parecia apenas dormir, suavemente. Uma senhora estava arrumando o lençol.

– Onde está meu filho?

A mulher aponta para o sofá ao lado. O menino dorme tranqüilo.

– Ele está bem? – Pergunta Peter ao médico que já estava no quarto.

– Não sei como explicar isso. Mas, o menino aparentemente não foi contaminado pelo veneno. Às vezes, somos forçados a acreditar em milagres.

– Ele está vivo. É o que importa.

Nisso, a mulher que arrumava o quarto, fala alguma coisa em idioma africano.

– O que ela disse?

– Acho que você terá que voltar imediatamente para os Estados Unidos, Peter. O Pessoal daqui é muito supersticioso, você não irá encontrar ninguém para te ajudar com o bebê. Para eles, o menino não deveria ter nascido. Ela disse que ele carrega o veneno. É apenas uma velha senhora, cheia de mitos e medos.

Providence, Long Island – Dias atuais – Segunda-feira

Mulder está dirigindo, enquanto Scully olha impacientemente um pedaço de papel.

– Não acredito que nós saímos de Washington para isso. – e aponta para o papel que está segurando.

– É o assassino Scully. Psicopatas precisam de Show. O crime para eles é um espetáculo. Estamos apenas lhe dando a chance de brilhar. É aí que reside sua fraqueza. Se ele nos quer provocar apontando o local onde encontraremos a próxima vítima. Teremos que ser mais espertos. Vamos pegá-lo primeiro.

– Fazendo o jogo dele. Não sei Mulder, está muito óbvio.

Já é noite quando param no lugar indicado pelo bilhete. Apenas uma velha casa está a vista.

– É, parece que ele não aprecia muito a idéia de viver em sociedade. – Ironiza Mulder.

– Eu vou dar a volta, tentarei entrar por trás. – avisa Scully, tirando sua arma do coldre.

– Scully… – Mulder a chama. Por um momento não sabe bem o que realmente quer lhe dizer. – Cuidado.

Ela nada diz, já se conhecem bastante, o silêncio pode ser a mais sincera das respostas. Então, desaparece no escuro, por detrás da casa.

Mulder tira também sua arma do coldre. Testa a maçaneta da porta. Está aberta. Entra devagar, sempre apontando a arma e a lanterna. Está muito escuro. Sussurra baixo o nome da Scully. Mas ela não responde. Ele pensa que talvez ela não tenha tido a mesma sorte com a porta e deve estar tentando encontrar uma maneira de entrar sem usar a arma para quebrar a fechadura. Não precisam anunciar a chegada. Apesar dele ter quase certeza que não irá encontrar o assassino ali. Algo o perturba. Sabe que uma surpresa eles irão enfrentar. O jogo começou, sem lógica, mas extremamente perigoso.

A casa é velha e mal cuidada. Mulder sobe a escada. Observa ainda ao seu redor, tentando encontrar sinal da Scully, mas nada vê. Há um corredor escuro. No final deste, um cômodo. Com certeza, se algo tiver para ser apreciado é lá que estará, pensa Mulder. Quando chega no quarto, começa a iluminar com o feixo poderoso da lanterna cada pedaço do local. Não acredita no que vê. Ainda tremendo, procura o interruptor de luz. Quando o encontra, o ambiente se torna ainda mais assustador. Ali estão inúmeras fotos, tiradas na rua, na igreja, na saída do prédio do FBI. Mulder se aproxima da foto maior e toca a face sorridente da Scully, lembra que essa foi tirada no restaurante. Apesar de estar ampliada, podendo se ver apenas o rosto, não foi difícil descobrir, Scully não sorri muito. É fácil lembrar de algo assim.

– Scully!!. – Mulder grita, já sentido um calafrio percorrer seu corpo.

Ninguém responde. Ele saí do quarto e desce correndo as escadas.

– Scully!!

Mulder vai em direção à cozinha. A porta dos fundos permanece fechada. Abre-a. Na noite escura, não há ninguém. No desespero, Mulder pega seu celular e liga para ela. Sabe que se estiver com o assassino, isso será inútil, mas ainda assim, tenta. Ninguém atende.

Na velha igreja em ruínas – Segunda-feira – 8:00 PM

Scully está com as mãos amarradas, encostada no que antes tinha sido a mesa de um altar. Brian se aproxima lentamente. Está com a arma dela na mão.

– Se não fossem todas aquelas aulas de defesa na academia do FBI, eu não teria conseguido te trazer aqui. Surpresa Scully, com a bela face do mal?

– Brian, – diz Scully tentando transparecer calma – você precisa de …

– Eu não sou louco, Scully. – fala Brian calmamente – É tão difícil aceitar que a maldade pode ser normal? Está em mim. Pulsa no meu sangue. Toda essa filosofia de faça o bem é pobre, patética. O Deus que manda dá a outra face e pune o mal com o inferno, não explica o veneno que carrego comigo. Sua ciência explica, Scully? – e aproxima seu rosto do dela, quase a toca com as mãos – Sua ciência e sua fé são uma fraude – e volta a se afastar.

– Você está com medo, Brian. Não é tão simples assim, vê-las morrer. É triste perceber que elas não estão apenas dormindo, não é mesmo?

– Suas palavras me comovem. – fala com um sorriso ameaçador – Será divertido ver a cara do Mulder quando você estiver se contorcendo de dor. Meu pai não agüentou. Dizem que ele enlouqueceu, se matou quando eu tinha uns dois anos. Pobre e miserável homem, não viveu para ver a criatura espetacular que ele ajudou a criar.

Scully está amedrontada. Mas permanece com o olhar firme. Não deixa ele perceber o quanto está assustada.

Na casa abandonada.

Mulder volta para a casa na tentativa desesperada de encontrar algum indício do criminoso. Na sala vasculha todas as gavetas, sobe novamente as escadas, percebe que há um outro quarto no corredor. Como a porta está muito frágil, consegue com poucos empurrões abri-la. Nesse quarto, há um quadro onde uma bela mulher grávida sorri em meio a paisagem vasta e bela de uma savana. Não há lâmpadas, apenas a luz da lanterna ilumina o local. Ao abrir um baú que estava próximo à cama, Mulder ver inúmeras fotos e recortes de jornais. Ler apressado algumas manchetes.

O QUE ACONTECEU COM O FOTÓGRAFO DA MORTE?

Juntamente com a manchete, segue-se a foto de Peter na África.

PETER CARTER, A LOUCURA DE UM GÊNIO DA IMAGEM.

Uma foto mostra a imagem ofuscada de um homem e uma criança.

MORRE PETER CARTER, O HOMEM QUE FOTOGRAFOU A DOR E O MEDO.

Depois de ler essa última manchete, Mulder fixa o olhar na foto de um adolescente. Traz bem para perto de seus olhos, tentando lembrar onde viu o rosto. A revelação vem com um susto. Aquele menino era Brian Carter, o colega bem humorado dos tempos da academia. O homem bem sucedido e sincero que cumprimentou Scully no restaurante. A angústia foi tomando conta do rosto de Mulder. Ela poderia estar morta. O celular toca.

– Mulder. – fala ele, temendo o pior.

– Olá “Sr. Agente do FBI”! – diz Brian ironicamente.

– Onde está a Scully, Brian? – Grita Mulder.

– OH! O amor. Quem diria!? O “estranho” Mulder tem um ponto fraco.

– Me deixa falar com ela, Brian. Por favor. – fala baixo tentando conter a raiva.

– Não se preocupe, Mulder. Ela ainda está viva. Eu não a beijei, apesar de estar louco para fazer isso.

– Toque nela e eu te mato, seu desgraçado. – Mulder fala descontrolado.

– Me matar é fácil, eu quero saber se você morreria por ela. Vamos “caro colega”. Segue a estrada em frente, você vai encontrar uma velha igreja. Venha só. Tente alguma gracinha e sua linda parceira vai dormir para sempre, entendeu, “para sempre”.

Quando Brian desliga o telefone, olha para Scully e sorri. Ela permanece séria, os olhos parados escondem um medo terrível.

– Movimentaram-se as peças no tabuleiro. Vamos ver até onde vai a insanidade do seu parceiro.

– Ele não virá só, Brian. Não entrará no seu jogo. No FBI, aprendemos a lidar com monstros. Sabemos que de nada adiantaria tentar jogar com homens doentes como você. –Scully parece não acreditar muito no que está falando.

– Você o conhece tão bem. – Brian toca suavemente os cabelos dela. – você sabe que ele virá sozinho, não arriscaria. Ele virá, Scully. Por você.

Mulder pára o carro um pouco antes da velha igreja. Caminha devagar até se aproximar de uma janela em forma de cruz. Olha dentro e vê Scully. Seu rosto esboça uma expressão de alívio. Vê também Brian ao seu lado, apontando-lhe uma arma. Como se pressentisse algo, Brian olha todo o espaço a sua volta.

– Mulder. – Brian grita lento e morbidamente – Você já está entre nós? Aproxime-se, velho amigo. O jogo está apenas começando.

– Mulder, liga para a polícia. Não confie nele, você sabe que ele não cumprirá nada. Acabe com o jogo. Não tente participar dessa loucura. – Scully fala isso com convicção, não deixa transparecer medo na voz.

Mal acaba de falar, avista Mulder entrando pela grande porta da frente. Vem só e desarmado. Scully dá um suspiro, sente-se vencida.

– Estou aqui, Brian. Deixe-a ir. – Fala Mulder diante do olhar de desaprovação de Scully.

– Isso foi romântico Mulder, mas completamente idiota. Você está me decepcionando. – posiciona-se atrás da Scully com a arma apontando para ela – Onde está o psicólogo brilhante? Você sabe que ela irá participar do jogo. Psicopatas não mudam seu perfil. Eu busquei sempre lindas mulheres ruivas. Eu dava-lhes um pouco de fé pendurada num cordão. Depois tinha que beijá-las, não é assim que termina todas as histórias de amor?

– Isso não tem nada a ver com amor, Brian. Mulheres inocentes estão morrendo. – ao falar isso, Mulder se aproxima.

– Fique onde está. Ou ela morre. – Brian aproxima-se da face da Scully.

– Mulder vai embora. Você sabe que não há nada para fazer nessa situação. Tudo que o interessa está aqui, ele não precisa de você. – fala calmamente Scully.

Como se estivesse numa outra época, Brian começa a falar quase num sussurro.

– Às vezes, eu sinto saudades dela. Nós costumávamos brincar aqui. Nunca a tocava, tinha medo. Sempre pensava que ela poderia partir para sempre. As pessoas sempre partem, não é mesmo? Até que um dia nós nos beijamos. Nunca fui tão feliz. – enquanto ele fala, Mulder olha para Scully, ela implora com o olhar para que ele saia. – Passado dois dias, ela morreu. Engraçado, morreu envenenada. Não sei explicar, mas sabia que aquilo tinha sido provocado por mim. Não tive remorsos, nem pena, fiquei feliz. Possuía um poder raro. Poderia fazê-las adormecer. – depois de uma breve pausa, onde o silêncio torna o suspense ainda mais insuportável, ele continua – Eu sou um cara comum, Mulder. Quase me tornei um agente do FBI. Mas eu sou um homem romântico. Romântico, não imbecil. – afirma sorridente. – Por isso, iludi aquele rapaz. Tinha que ter um idiota para levar a culpa. Sempre que ficava com alguma mulher, dava uma grana para que elas fossem fazê-lo feliz. Isso deu um trabalho, pois o babaca mudava de cidade constantemente, estava amedrontado. Mas foi até divertido, apesar de ter que matá-lo depois. Isso foi suficiente até o momento que você me apresentou a Scully no restaurante. Foi como se eu pudesse vê-la novamente e não era mais uma menina. Mas você estava lá, entrou na jogada. Então eu pensei, isso pode ficar mais emocionante.

– Brian – Scully tenta conversar com ele calmamente – Se existe algo na sua estrutura que está contaminando as pessoas a ponto de levá-las à morte, você não estará completamente imune, em breve isso pode também provocar a sua morte. Deve haver um tratamento. Nos permita te ajudar.

– Olha só, Mulder. – Acaricia suavemente a face da Scully – Como seria vê-la morrer, contorcendo-se de dor?

– Cale a boca, seu canalha! – grita Mulder, chegando bem perto dele.

– Sabe o que é triste nesse jogo? Um de nós vai ter que morrer. – conclui Brian.

Os três estão próximos. Cada qual tentando calcular o próximo passo do outro. O barulho do vento atravessando os restos do que fora uma igreja parece estar mais vivo que as três pessoas angustiadas que estão dentro dela. Mulder sabe que precisa agir rápido. A loucura é impaciente. Brian logo encerraria o jogo.

– O que você quer de mim, Brian? Pergunta Mulder.

– Não sei, acho que preciso de platéia. Devo ser louco mesmo.

– Vamos acabar logo com isso. – diz Scully, levantando-se com dificuldade.

– Sente-se aí. – Grita Brian enlouquecido.

– Faz o que ele está falando, Scully. – Pede Mulder desesperado.

Scully não dá atenção ao pedido de Mulder, aproxima-se de Brian e fala cautelosamente.

– Eu só quero me despedir dele e vou fazer isso. Será apenas um beijo. Isso significa muito para nós. Eu nunca falei o quanto o amo. – olha para Mulder emocionada – Você pode me matar agora ou esperar me despedir. Você escolhe até onde vai sua monstruosidade.

Mulder vai abrindo a boca para falar algo, mas Scully com o olhar convence-o a se calar. Ela anda lentamente em sua direção. Quando já está na sua frente, levanta as mãos que ainda permanecem presas e toca-lhe a face com carinho. Ele acaricia suavemente seu cabelo, o olhar é de medo, mas por um momento até esquece que um louco os observa. Aproximam-se mais e tocam os lábios suavemente. O abraço se torna mais forte. Scully afasta os lábios dos dele bem devagar e sussurra algo em seu ouvido. Mulder procura a arma que está escondida atrás da capa que ela usa e atira duas vezes na direção de Brian.

Scully e Mulder se aproximam de Brian. Ele ainda está vivo.

– Eu poderia ter te matado. – diz olhando para Scully – Mas não quis. Não pude. Estava cansado, precisava adormecer. Acho que irei dormir agora. É engraçado, sempre tive medo do escuro, mas agora não me parece tão mal assim. – olha para Mulder e acrescenta – Boa noite , “Sr. agente do FBI”.

Prédio Edgar Hoover, Porão –Terça-feira – 6: 00 PM

Mulder está olhando pensativo o cartaz que diz “Eu quero acreditar”, quando Scully abre a porta, está trazendo uma pasta.

– E aí, fez a autópsia?

– Não. Alguém autorizou que cremassem o corpo antes.

Silêncio, Mulder fica olhando para um ponto na parede.

– Você não vai falar uma das suas teorias sobre os homens que estão por trás, encobrindo a verdade.

Ele levanta com um leve sorriso nos lábios, pega a pasta que está na mão da Scully, abre um dos arquivos de aço e a coloca lá dentro.

– É apenas mais um Arquivo X que será arquivado em aberto. Mais algumas interrogações para a minha já vasta coleção. Já pensou Scully, o quanto a vida seria chata sem tantas perguntas?

– É, estou surpresa. Tem certeza que não quer falar nenhuma teoria?

Mulder fica sério por um momento.

– Você se arriscou muito naquele dia. Ele poderia ter te matado.

– Não havia outra saída, Mulder. Eu sei que agi como ele e você também, indo lá desarmado e só. Acho que, por um momento, estávamos todos iguais. Isso realmente me assusta. É muito frágil nossa sanidade.

– É, deve ter sido difícil, o beijo e tudo mais. – Mulder está com um sorriso falsamente ingênuo.

– É, desculpe toda aquela encenação. – fala Scully entrando na brincadeira.

– Que nada. Sempre que precisar. Quer dizer, foi legal. – ele faz uma pausa e acrescenta -Onde começou a encenação?

– Essa você vai ter que descobrir sozinho.

F I M

Autoria: Parcilene Fernandes

29/01/99

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comentários
  1. Leafarneo disse:

    Parcilene também é cultura!! \☺/

  2. Leafarneo disse:

    tu é muito esperto hein, colocando o nome da Parcilene e mandando um spam para que todos acessem seu blog.

  3. thiagoamorim disse:

    marketing viral??, será que aprendemos isso em GT 2??

  4. Leafarneo disse:

    pode até ser, mas marketing viral seria o “boca-a-boca” e nao utilizando spam e-mail coletivo, hehehe. Mas o blog ta legal.

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